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Talento E Formosura

(Catullo Da Paixão Cearense / Edmundo Otávio Ferreira)

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  • Tu podes bem guardar os dons da formosura
    Que o tempo, um dia, há de implacável trucidar
    Tu podes bem viver ufana da ventura
    Que a natureza, cegamente, quis te dar
    
    Prossegue embora em flóreas sendas sempre ovante
    De glórias cheia no teu sólio triunfante
    Que antes que a morte vibre em ti funéreo golpe seu
    A natureza irá roubando o que te deu
    
    E quanto a mim, irei cantando o meu ideal de amor
    Que é sempre novo no viçor da primavera
    Na lira austera em que o Senhor me fez tão destro
    Será meu estro só do que for imortal
    
    Terei mais glória em conquistar com sentimento
    Pensantes almas de valor e alto saber
    E com amor e com pujança de talento
    Fazer um bargo ternas lágrimas verter
    
    Isto é mais nobre é mais sublime e edificante 
    Do que vencer um coração ignorante
    Porque a beleza é só matéria e nada mais traduz
    Mas o talento é só o espirito e só luz
    
    Descantarei na minha lira as obras-primas do Criador
    Uma color da flor desabrochando à luz do luar
    O incenso d'água que nos olhos faz a mágoa rutilar
    Uns olhos onde o amor tem seu altar
    
    E o verde mar que se debruça n'alva areia a espumejar
    E a noite que soluça e faz a lua soluçar
    E a estrela d'alva e a estrela Vésper languescente
    Bastam somente para os bardos inspirar
    
    Mas quando a morte conduzir-te à sepultura
    O teu supremo orgulho em pó reduzirá
    E após a morte profanar-te a formosura
    Dos teus encantos mais ninguém se lembrará
    
    Mas quando Deus fechar meus olhos sonhadores
    Serei lembrado pelos bardos trovadores
    Que os versos meus hão de na lira em magos tons gemer
    E eu, morto embora, nas canções hei de viver
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