Entrevista: Vanessa da Mata
"Minha mãe sabia de todos os meus planos... na verdade queria que eu fosse Elis", Vanessa da Mata
Vaga-lume - 14 de Março de 2006
A princípio Vanessa da Mata poderia até ser encaixada como mais uma dentro da leva de intérpretes femininas que de tempos em tempos surgem no Brasil. Mas da Mata tem talento e história em quantidades suficientes para deixar a concorrência para trás. Apesar de ter começado a carreira como cantora, ela despontou para o sucesso como compositora, tendo suas músicas gravadas por Maria Bethânia, Daniela Mercury e Chico César. Sua canção “A Força que Nunca Seca”, feita em parceria com esse último, concorreu ao Grammy latino.
Antes de chegar ao grande sucesso dos dias de hoje, Vanessa lançou um primeiro disco bastante elogiado que botou seu nome na pauta de jornalistas e colegas, foi vocalista de apoio do Black Uhuru (uma das mais cultuadas bandas de reggae do planeta) numa turnê brasileira e quase foi efetivada ao grupo e ainda virou queridinha de bambas como Nelson Motta. Foi esse último quem deu uma força para que a voz da cantora entrasse numa novela da Globo (“Essa Canção”, o antigo sucesso gravado por Roberto Carlos que fez parte de Celebridade) e tornasse a cantora conhecida do grande público.
Agora Vanessa é a bola da vez: está com outro hit em novela Global (“Ai, ai, ai” em Belíssima), ganhou disco de ouro no Faustão e segue fazendo shows concorridos por todo o Brasil e também no exterior. Foi pra falar de tudo isso e um pouco mais que Vanessa conversou com a gente.
Seu novo disco tem uma sonoridade mais pop/contemporânea que o primeiro. Queria que você falasse sobre essa mudança.
Meu primeiro disco foi um disco cheio de cuidados excessivos, mesmo fazendo em shows minhas músicas com guitarra e bateria, eu não queria que o disco tivesse muitas guitarras e tantas baterias. Acho que com o segundo ele foi mais de acordo com meu show e com minha idade.
E o Liminha como você o conheceu? Fale sobre essa parceria e será que ela vai continuar no futuro?
O Liminha eu conheci no meu primeiro disco. Ele produziu também o meu primero disco, assim como Jacks Morelembaun, Dadi e Kassim. Já havia boas parcerias no primeiro disco, "Case-se Comigo" e "Longe Demais". Dai foi só continuar no segundo. Resolvi fazer o disco com ele e deu mais que certo. Sobre parcerias no futuro, acho que podem surgir sim... vai depender do nosso tempo e possibilidades.
Apesar de ter surgido como compositora, o seu lado intérprete era o mais conhecido do grande público. Isso está mudando agora com "Ai, Ai, Ai", seu primeiro grande hit como cantora composto por você mesma. Imagino que esse sucesso esteja lhe dando mais prazer que os outros, não?
Com certeza...risos....
Essa pergunta vai para a Vanessa intérprete. Da onde surgiu a idéia de regravar "História de uma Gata" do Chico? Geralmente as pessoas escolhem as músicas mais, digamos, intensas dele para regravar e você preferiu sair pela tangente. Para você as conotações políticas dessa música continuam atuais?
As conotações políticas dessa música continuam atuais para a minha atualidade. Aliás, esta música é muito densa pra mim, afinal, saí de casa muito cedo e fui pra noite trabalhar. Apesar de ser uma música alegre, ela não é menos profunda por isso.
Em cima dessa regravação outra curiosidade. Os Los Hermanos regravaram há alguns anos "Hollywood" que o Chico fez para a versão cinematográfica dos Saltimbancos. Os Hermanos estão na proa de um movimento ainda sem nome que está rolando no Brasil onde rock e MPB se misturam de forma mais orgânica e não mais como água e óleo. Eu senti isso em muitas canções de seu novo CD. Isso procede?
Pode ser num movimento inconsciente de muitos "novos". Não é uma coisa pensada. É uma coisa muito mais sentida e intuitiva.
Outro "midas" que trombou no seu caminho foi o Nelson Motta. Como foi trabalhar com ele? Vocês continuam se falando?
Adoro o Nelsinho. Acho um cara inteligente, sabido de muitas coisas na música brasileira, de muito bom gosto e moderação. Gostei de trabalhar com ele e ouvir seus conselhos, continuamos nos falando. Adriana Penna, mulher dele é, hoje, minha Assessora de Marketing. Então sempre nos falamos.
Voltando um pouco no tempo queria saber dos tempos passados no Mato Grosso. Quando você se descobriu cantora (ou foi a compositora Vanessa da Mata quem surgiu primeiro?).
A compositora veio muito depois da cantora... eu não acreditava que se pudesse compor sem tocar instrumentos. Fui descobrir que era possível, sozinha, sem saber que isso já existia, em pouquíssimos casos. Já dizia que queria ser cantora aos três anos de idade. Existia uma vocação enorme para aquilo. Eu era completamente impulsionada à um caminho desconhecido que me trouxe até aqui.
Ainda sobre os tempos mais "antigos". Queria saber sobre as suas primeiras influências e apresentações em público.
Na minha infância ouvia de tudo que se possa imaginar de uma pessoa que vive no interior: música sertaneja, caipira, sambas, bossa nova, Luis Gonzaga, Roberto Carlos, música brega italiana, Milton Nascimento... Acho que o que eu mais gostava eram as músicas de Milton, Clara Nunes, Bethânia e Roberto Ribeiro... essas são as que mais me lembro, mas lógico que existem as músicas de melodias fortes que "grudam" e que com certeza também me influenciaram (risos)
E essa história de falar para os pais que ia estudar medicina como foi? Demorou muito para os seus pais te perdoarem?
Minha mãe sabia de todos os meus planos... na verdade queria que eu fosse Elis Regina. Pelo meu pai eu teria ficado lá, junto da família. Como eu sabia que ele queria os filhos bem formados e doutores, me aproveitei deste fato para seguir minha vida, já que na minha cidade, não havia possibilidade nem estrutura para eu ser cantora. Meu pai perdoou com o tempo.. quando ele percebeu que eu poderia me manter e seguir uma vida digna sendo cantora.
Você já consegue identificar o seu público? Eu particularmente conheço gente que gosta do seu trabalho por considerá-lo uma alternativa á, digamos, Maria Rita e Ana Carolina. E também conheço fãs dessas duas que também te admiram.
Bom disso eu não sabia. O que eu percebo é que existem muitos jovens e uma diversidade incrível de famílias inteiras, casais se beijando, parceiros gays se beijando, adolescentes, pessoas mais maduras... enfim adoro essa pluralidade! Acho extremamente saudável...
A imagem é importante dentro de seu trabalho? Você decide sozinha como vai se vestir, que cabelo vai usar ou como deve sair nas fotos? Isso é algo que te preocupa?
Sim porque estamos lidando com imagem. Por mais que alguém te diga que tenha um estilo despojado, ele vai com certeza escolher as fotos escolher uma roupa para ficar despojada. Tudo neste meio é devidamente produzido. Estou falando de imagem!!! Muitas vezes aquilo é natural do cantor, por exemplo: o meu cabelo ou meu estilo em me vestir. Só escolho e trato para que fique tudo dentro do que eu sou . Não tenho personal stylist, por exemplo. Vários já tentaram e não conseguem achar uma roupa para o meu estilo. Geralmente uso roupas minhas ou vou à caça. Detesto, mas não tem jeito.
Pra encerrar queria saber dos planos seus para 2006 e que deixasse uma mensagem para os nossos leitores.
Seguir a vida com saúde mental e física. Tenho muitos planos, mas nenhum com a possibilidade de concretização já armada, então prefiro não falar. Para os leitores: Vamos brindar à Vida meu bem! (muitos risos) ...





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