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Entrevista: Skank


"Nós não temos uma ligação, digamos, religiosa, com a música jamaicana. A gente tem o direito de mudar assim como todo mundo...", Henrique Portugal

Vaga-lume - 20 de novembro de 2006

Já se passou 13 anos desde o dia em que Samuel Rosa estampou a sua cara (ao lado de Carlinhos Brown, Edu K e o Okotô) na Revista Bizz com a chamada: A nova cara da música pop brasileira. Com o passar dos anos a aposta da revista acabou se mostrando correta ao menos para os mineiros. Nação Zumbi pode ter tido mais sucesso de crítica e no exterior; os Raimundos também poderiam ser os favoritos do pessoal mais jovem, mas coube ao Skank o papel de maiores vendedores de discos da década, especialmente graças aos primeiros discos que misturavam o reggae com o pop e sotaques brasileiros e latinos.

Weber Pádua
Skank letras
Skank

No ano 2000 com o disco Maquinarama a banda surpreendeu ao abrir mão dos ritmos jamaicanos para apostar mais em um som que lembrava The Beatles mas também o som feito pelo Clube da Esquina (de Milton Nascimento, Lô Borges e Beto Guedes) e ao mesmo tempo soava contemporâneo graças a ligação com o brit-pop de Oasis e Blur. Com Cosmotron a banda deu seqüência a esse trabalho investindo mais ainda nas pesquisas de estúdio. O sucesso continuou (“Vou Deixar” se tornou um dos maiores hits da banda) mas a crítica se dividiu entre os que aprovaram e os que viam com certa desconfiança os novos rumos da banda.

Após três anos sem lançar disco de inéditas o Skank voltou com Carrossel, um disco que de certa forma conclui a metamorfose iniciada com o Maquinarama. O Vaga-lume telefonou para o tecladista Henrique Portugal para que ele falasse do novo cd, a opinião deles sobre as críticas sofridas pela banda e sobre o Frente o programa que comanda na Rádio Uol onde semanalmente apresenta bandas novas de todo o país.

 Entrevista

Vocês estão levando cada vez mais tempo para lançar um novo disco. Porque o Carrossel demorou tanto a sair?


A gente lançou o Cosmotron em 2003. Em 2004 por força de um contrato com a gravadora nós tínhamos que lançar uma compilação. Então lançamos o Radiola e colocamos algumas músicas inéditas no disco. O estouro de “Vamos Fugir” acabou gerando uma nova turnê e foi por isso que o hiato entre um lançamento e outro acabou tão grande.



As músicas já estavam prontas ou foram todas compostas mais recentemente?


Todas elas são recentes. Elas foram feitas de dezembro de 2005 para cá.



Em algumas entrevistas eu vi vocês falando que esse disco estaria meio que "concluindo uma trilogia" que começou no Maquinarama. É por aí?


É engraçado isso, o nosso release é que diz isso e (essa frase) acabou se tornando uma referência para muitas matérias. Na verdade, esse é o terceiro disco dentro dessa linha que a gente vem seguindo desde o Maquinarama, onde a presença do rock é bem mais forte do que era antes. Mas eu acho que isso é uma tendência normal do ser humano. Depois de quinze anos de banda nós obviamente estamos ouvindo outras coisas. Nós não temos uma ligação, digamos, religiosa, com a música jamaicana. A gente tem o direito de mudar assim como todo mundo (risos).



Ao mesmo tempo sente-se que o Carrossel tem um lado pop mais acentuado que os dois anteriores além de estar com uma sonoridade mais crua. Isso foi pensado?


Skank letras

É verdade. Nesse disco a gente tentou ao mesmo tempo retomar algo que tínhamos abandonado com o Maquinarama que era a simplicidade. Esse é um disco que tem muitas melodias bonitas que acabaram ficando complicadas (por conta do excesso de detalhes dos arranjos). Mas o simples não é necessariamente mais fácil de ser feito, aliás é geralmente o contrário, já que é muito mais fácil esconder um erro e coisas mal feitas em uma música cheia de elementos do que em uma mais simples.



Outras coisa que se percebe é que a crítica está dividia com esse disco novo. Alguns louvaram a opção pelo pop bem construído e redondo e outros reclamaram exatamente dessa opção. Vocês costumam ler as críticas sobre o trabalho da banda e como lidam com as resenhas negativas?


A gente lê tudo que sai sobre a gente. Nós procuramos entender o porquê deles estarem falando certas coisas. Eu vejo que por termos feito no começo uma música bem distinta da feita atualmente faz com que as pessoas as vezes gostem de uma fase e não da outra. Então muitas vezes o que se vê não é nem uma crítica ao trabalho, mas sim à fase. Aí começa aquele papo de que se o Skank faz um disco mais pop signifca que “(em tom irônico) a banda está se rendendo ao jogo das grandes corporações”. Ao mesmo tempo às vezes o crítico pode estar certo em algumas colocações.



Vocês levam em consideração essas análises quando se preparam para gravar um novo disco? O Skank é uma banda que faz auto-críticas?


Sim e eu acho isso extremamente importante já que a gente sempre busca fazer o nosso melhor. Tanto que por conta disso nós demoramos tanto pra lançar esse disco. Eu acho que nenhum artista lança um disco sem pensar em tudo o que está ligado a esse trabalho, seja ele o mercado fonográfico ou o gosto do público. É lógico que tem certas coisas das quais não abrimos mão, como colocar algumas músicas que satisfaçam mais ao nosso gosto e não o que de repente as outras pessoas esperam da gente. Mas isso vem do lado do Skank estar numa posição mais confortável dentro do mercado, já que mesmo os discos mais "experimentais" da banda venderam bem. Na verdade a gente sempre teve muita liberdade, talvez pelo fato de termos começado a carreira de forma independente. Ao mesmo tempo existe um respeito mútuo (entre a banda e a gravadora). Mas sempre buscamos ser coerentes e criativos e acho que o sucesso do Skank vem dessa busca.



Voltando ao disco novo, como rolou essa parceria com o Arnaldo Antunes?


Weber Pádua
Skank letras
Skank

O Samuel de férias na Bahia, Arnaldo Antunes de férias na Bahia... o Samuel levou o violão e o Arnaldo o gravador dele e assim foi (risos)



Aliás acho legal falar um pouco desse lado do Skank, já que vocês são das raras bandas que sempre trabalham com gente de fora na hora de compor.


A maioria dos músicos que a gente conhece costuma passar muito tempo tocando e pouquíssimo escrevendo. E na hora de fazer uma música ou um disco o resultado dessa “falta de exercício literário” acaba rendendo “pérolas” onde você tem uma grande música e uma letra nem tanto. Por isso gostamos de trabalhar com gente que saiba escrever bem como o Arnaldo Antunes ou o Nando Reis.



Continuando nesse tema eu queria saber se o Samuel dita o tema da letra pro parceiro ou se ele entrega a melodia e só vê o resultado depois de pronto?


As duas coisas acontecem. Às vezes a gente recebe a letra e a música vem depois. Mas normalmente o Samuel traz uma idéia para o estúdio e a gente trabalha a música dando já a cara dela e depois a gente manda esse material para os parceiros.



Mas vocês nunca quiseram escrever as letras?


Na verdade a gente nunca tentou muito não, já que somos desse time que eu disse que passa mais tempo tocando mesmo. A gente prefere ter uma qualidade melhor no resultado final, já que isso é que fica do que ficar arriscando. E no final acho que é difícil alguém reclamar das nossas letras, muito por causa disso.



Como estão os trabalhos extra-curriculares de vocês? O Haroldo ainda gosta de produzir bandas novas? E o Frente (o programa da rádio UOL dedicado às bandas independentes)? Como anda?


Weber Pádua
Skank letras
Skank

A gente tem um estúdio e quando não estamos nele nós o alugamos ou produzimos alguma banda. Esse ano não deu muito tempo para isso. O programa está legal também, eu recebo muito mais coisas do que dá pra tocar. Não que todas as coisas que eu receba sejam boas né? Chega muito lixo (risos). Mas é aquilo né? Na minha época você só gravava alguma coisa quando tinha a certeza de que aquilo ali estava bom. Aí o cara me manda e eu tenho de responder: "Pô legal vocês terem gravado, mas a banda precisa ralar um pouco ainda". Mas ao mesmo tempo eu ouvi muita coisa legal nesse ano, como o Monno que abriu o nosso show em São Paulo. Pelas minhas contas mais de 250 bandas já passaram pelo programa.



Quando entrevistamos o Pato Fu nós brincamos que de todas as bandas surgidas nos anos 90 só as mineiras não se separaram ou perderam membros. Qual o "segredo" de vocês (risos). E porque será que as bandas dos 90 não conseguiram se manter como as surgidas na década 80?


A gente não perde tempo brigando não, pra quê? Mas acho que existe uma questão de foco. O John do Pato Fu já tinha tocado em outra banda antes, o pessoal do Jota Quest também. Enfim a gente sabe como foi difícil conquistar o nosso espaço para de repente jogar tudo pro alto por causa de alguma bobeira. Isso não quer dizer que não possa acontecer algo no futuro, mas eu acho que tudo se resume a isso: foco no trabalho.



O que vocês têm ouvindo ultimamente? Pintou alguma banda que tenha influenciado diretamente no trabalho de vocês?


A gente ouviu muita coisa e sentiu que o que a gente queria fazer era bastante coerente com o que estava sendo feito lá fora por muita banda independente de lá. Uma banda que a gente gosta muito é o Hal (uma banda irlandesa com um som calcado no lado mais pop dos anos 60 e 70). E sei que aqui tem muita banda fazendo esse tipo de som. Ao mesmo tempo o que toca nas rádios são os "emo da vida" eu vejo uma distância enorme entre o que as bandas independentes daqui estão fazendo (e são elas que no futuro estarão nas gravadoras) e o que toca nas rádios. Essa coisa do "emo" é bacana e tal, mas dentro do mundo independente são pouquíssimas as bandas que fazem esse tipo de música.



Algumas perguntas sobre a nova turnê: Vocês vão pra estrada com algo especial (cenário, efeitos, novos músicos...)? E o repertório? Imagino que seja mais complicado agora montar um set querendo equilibrar novidades, hits e músicas mais obscuras. Vocês costumam variar o set lists?


A banda é a mesma da última turnê, com o Doca na guitarra e mais dois metais. O cenário foi feito pelo Gringo Cardia, e ele fez algo em cima da estética circense mas não um circense óbvio. Quanto ao set a gente viu que se trabalhássemos com um set fechado muita música iria ficar de fora. A gente então trabalha com dois set lists diferentes mudando alguma coisa em cada apresentação.