Entrevista: Ludov
"A Disney é uma empresa com um rígido controle de qualidade e identidade... ", Mauro Motoki.
Vaga-lume - 25 de Janeiro 2007
Desde que foram chamados pela Disney para fazer a versão de uma das canções do High School Musical (What I've Been Looking For, que virou O Que Eu Procurava) , os paulistas do Ludov ficaram mais conhecidos, especialmente por um público que talvez nunca tivesse ouvido falar neles.
Se você está entre essas pessoas aqui vai um breve resumo: a banda de Vanessa Krongold, Mauro Motoki, Paulo “Chapolin” Rocha e Habacuque Lima já está junta há quase 10 anos quando formaram o Maybees, que atraiu certa atenção de mídia e do público de rock alternativo. O Maybees fazia música pop com bastante influência das bandas inglesas mais melódicas dos anos 60 e 90. Cantando em inglês eles lançaram dois discos. Sentindo que o momento estava mais propício para quem cantava em português, a banda foi radical: encerraram a carreira como Maybees e abriram mão de todo o repertório, para renascer primeiro como Super-trunfo e finalmente como Ludov (numa citação ao livro A Laranja Mecânica).
Rapidamente as coisas começaram a melhorar. A mídia deu apoio e a MTV também passou a veicular os clipes da banda. Tudo isso culminou no ano de 2004 com o vídeo de Ludov sendo indicado para vários VMBs (levaram o de revelação do ano para casa). Logo depois eles assinaram com a Deckdisc (a mesma de Pitty e Cachorro Grande) e seguiram em frente. No ano passado o Ludov voltou á independência ao assinar com o novo selo paulista Mondo77.
Ao mesmo tempo foram convidados pela Disney para fazer a versão de um filme musical que prometia fazer muito sucesso e mostrar a banda para um público completamente diferente. O resultado foi além do esperado, já que High School Musical foi muito mais que um simples sucesso tornando-se um dos grandes fenômenos de mercado de 2006. Nesse momento o grupo está preparando seu novo disco que vai ser produzido por Chico Neves, o mesmo nome por trás de discos elogiados dos Los Hermanos e Skank.
Para saber mais sobre tudo isso nós batemos um papo com Mauro Motoki, o guitarrista e principal compositor da banda. O resultado você confere aí embaixo.
Vamos começar falando da versão pro High School Musical. Como foi que a Disney chegou em vocês. Uma banda mais identificada com o cenário underground e independente. E como rolaram as gravações de "O que eu procurava". A versão e o arranjo foi feito por vocês?
Nós mandamos o material de praxe para o Disney Channel, com o clipe de Princesa, se não me engano. Nunca esperaríamos o que veio em troca, esse convite, essa participação na trilha do High School Musical. Gravamos em São Paulo mesmo, no estúdio 12 Dólares, em poucos dias. A Disney é uma empresa com um rígido controle de qualidade e identidade, devido ao tamanho de suas empreitadas e a movimentação em torno delas. Não teria como ser diferente e funcionar como funciona. Por outro lado, para nossa felicidade, a versão da letra e o arranjo ficou totalmente nas nossas mãos, achamos legal esse voto de confiança, e tem tudo a ver com a maneira que sempre trabalhamos.
Ao mesmo tempo uma parcela desse público underground (e mesmo algumas bandas) costuma não gostar muito dessa aproximação com o mainstream. Essas questões chegaram a ser consideradas pela banda?
Questões como essa não passam nem remotamente perto das nossas considerações. Primeiro, porque essa parcela chata, policial, censura e autoritária do público é ínfima e não nos interessa. Não submeteremos nunca nossa música ao julgamento de meia dúzia de desconhecidos. O público do underground, do independente, é mais inteligente do que pressupõe essa imagem carrancuda. O trunfo do independente não é o exclusivismo, a necessidade de uma banda se acomodar dentro de certas trincheiras, de certos muros. O trunfo do independente é a diversidade, é o vínculo com um público interessado.
E como vai ser daqui para a frente? Será que os shows do Ludov vão passar a ser freqüentados por pré-adolescentes?
Já o são. Principalmente em pocket shows, onde o acesso é livre e gratuito, ou nos SESCs, no Centro Cultural São Paulo, vemos pré-adolescentes, crianças... e eles formam um público tão bom quanto nosso público regular. Às vezes até mais empolgados. Lidar com gente nova é interessante, e um desafio. Não passaremos a ser uma banda infanto-juvenil, então é instigante pensar em como, com o passar do anos, essas crianças que gostaram da O Que Eu Procurava vão reagir aos nossos próximos discos, à medida que nós e eles amadurecemos.
Muita gente não deve saber que vocês já estão com vários anos de estrada. Queria que falasse pra gente de alguns desses momentos, desde quando eram Maybees até o dia em que ganharam o VMB.
Pois é, parte da banda se conhece e toca junto desde 1995, quando eu e Habacuque - que já nos conhecíamos desde muito jovens - mudamos para São Paulo. Tivemos essa banda Maybees, que lançou dois discos independentes. E tocamos muito, com nosso amigo Peixe, em bar de surfista, em festa de empresa. Tocando coisa boa, veja bem. Fabulosos Cadillacs, Perfidia, Bob Marley. Carregamos muito equipamento pra cima e pra baixo, fizemos muitos shows sem escutar nada do que tocávamos, pagamos para tocar, tocamos para pagar, foram alguns anos assim. Até que em 2002,acho,montamos o Ludov, lançamos em seguida o EP Dois A Rodar, que contém Princesa, cujo clipe ganhou o VMB 2004 na categoria independente. Foi um dos momentos cruciais até então da nossa carreira. Começamos a fazer mais shows, ficar mais conhecidos.
Fazer parte de uma banda de meio porte no Brasil não é exatamente fácil. Queria que vocês falassem um pouco sobre isso. Vocês têm outras ocupações? Dá pra pensar em sobreviver só de música nesse esquema de ser uma banda conhecida mas que não tem vendagens mega?
Estamos encontrando, todos os dias, as opções que temos. Temos outras ocupações, mas minha busca pessoal, por exemplo, é que elas sejam sempre ligadas à música. Quanto à vendagem de discos, estamos todos vendo que, se nunca foi o que deu dinheiro pros artistas, muito menos
agora, com todas as transformações que estamos vendo, não é? E para nós, a meta é realista, não estamos atrás do glamour, nem de montanhas de dinheiro. Só de montinhos que paguem nossas contas. E aí tem que fazer muito show, vender camiseta, sei lá.
Por falar em Vmb, desde o começo o Ludov (e os Maybees) sempre se preocuparam bastante com a estética e a maneira da banda ser apresentada. Queria saber do porquê de tamanho cuidado com essa faceta vista por muita bandas como algo secundário.
Você sabe que isso já foi mais pensado, da nossa parte? Hoje em dia, acho que fazemos pouco, ou apenas o normal. Ou então é só preguiça da minha parte, por saber que em breve teremos que pensar nisso tudo de novo, por causa do disco que virá. As bandas em geral se preocupam mais hoje com esse aspecto visual. Mas isso é correto, do ponto de vista da comunicação com o público mesmo. Se bem executado, até auxilia a música a chegar nas pessoas da maneira que você sugere ou pretende. Por exemplo, há discos de capa branca azulada, vamos dizer o OK Computer do Radiohead. Para mim, as músicas daquele disco têm essa tonalidade. Elas não seriam as mesmas se a capa fosse marrom, cor de madeira, concorda? Ou então você vai a um show de uma banda como Los Hermanos, e tem aquele painel gigantesco atrás, com a paisagem do Rio do Janeiro, se não me engano, como teve em uma das turnês deles. Aquilo sem dúvida não só deixa o palco mais bonito, como pode te levar um degrau acima, no universo das letras, das melodias, da experiência das canções como um todo. Nosso interesse por estética é fundamentado nessa linha de raciocínio.
O site do Ludov também sempre funcionou como um ponto de encontro entre vocês e os fãs. Recentemente vocês fizeram um concurso para que os fãs fizessem o clipe da música "Sintonia". Queria saber se chegaram vários vídeos e se foi difícil escolher apenas um.
Chegaram muitos vídeos, algumas dezenas, e obviamente foi difícil escolher o ganhador. Porque você quer presentear, e reconhecer os esforços de todos os que participaram. O cara perdeu horas de seu dia, talvez dias de suas semanas, bolando algo para uma música nova. É muito chato ter que escolher só um. Quando bolamos essa promoção com a Mondo 77, não quisemos muito prever isso. Mas valeu a pena, porque foi uma desculpa boa para o sujeito tirar a bunda da cadeira, talvez chamar uns amigos e produzir algo que signifique algo para ele, num nível íntimo, pessoal, artístico, ainda que caseiro ou amador. Isso foi o mais importante para nós.
Vocês pensam em fazer mais eventos desse tipo, que unem banda e público de forma mais diferenciada? Como vai ser essa história do fã clube da banda?
Por enquanto, as coisas mais legais que fizemos teve sempre esse contato com o público evidenciado de alguma forma. Nossos shows, nosso site, tudo isso é orientado para essa proximidade ser saudável, e não intrusiva nas nossas vidas pessoais. O fã-clube Ludovicos existe há um tempo, e vem sendo administrado de diferentes formas, por diferentes pessoas, ao longo dos anos. Sempre na base do carinho deles, e da gratidão nossa. Não nos envolvemos com a gestão, digamos assim, dessa comunidade - que é o que eles são. Dessa vez, entrou um pessoal aí muito bacana, que está dando uma revigorada nisso. Eles já são muito ativos, muito frequentes, apenas estão organizando um pouquinho a festa.
Os últimos meses também foram difíceis com a saída do Edu. Complicou muito perder um integrante quando vocês estavam pra entrar em estúdio? E como está sendo levar a banda sem ele?
Foi doloroso para mim no plano pessoal. Somos amigos do Edu há muito tempo, eu particularmente, de sairmos juntos, então a saída dele foi sentida nas viagens, nas brincadeiras do dia-a-dia. Mas para a banda, tudo foi muito bem resolvido com antecedência, sabíamos dos planos dele fora da banda, e antes de tudo, uma amizade serve para dar apoio, para encorajar a busca por riqueza, no sentido mais nobre da palavra. Musicalmente, já nos arranjamos. Levamos um músico extra pros shows, que tem sido o Fabio Pinc, e nos arranjos para o disco novo ele também tem dado uma força. Mas decidimos continuar só nós quatro, Vanessa, Habacuque, Chapolin e eu (Mauro Motoki), como Ludov.
Falando em estúdio, como andam as gravações do disco novo? As músicas seguem o padrão de pop independente do disco anterior ou novos elementos foram adicionados?
Estamos prontos com os arranjos. Atrasamos um pouquinho nossa entrada em estúdio, e vamos gravar de fato agora em fevereiro. É bom pra dar uma olhada menos afobada para as músicas, ver como elas estão se comportando. As músicas procuram não seguir nenhum padrão. Nós procuramos não seguir nenhum padrão.
Aproveitando esse papo acho legal que vocês falassem de suas influências e sobre os discos que andam ouvindo no momento.
Eu tinha resolvido que esse ano eu só ia responder The Beatles. Só conheço e ouço The Beatles. É sempre muito chato falar de influências. Não porque elas não existam, mas porque não era pra se dar tanta importância assim a elas, na minha opinião. Serve só para Fulano encaixar a gente em categorias. Ah, o cara gosta de Caetano Veloso. Categoria tal. Ah, não gosta? Categoria outra tal.Ou então é mais pentelho ainda: ele está ouvindo Led Zeppelin? Deixa eu ver onde tem Led Zeppelin nessa música nova. Só tem uma coisa legal nesse papo de influência: divulgar quem você acha que deve ser divulgado, independente se o artista é consagrado ou não. Então, ouçam Vicentico e sua ex-banda, Fabulosos Cadillacs. Ouçam o disco novo do Caetano Veloso, e do carinha do The Strokes, Albert Hammond Jr. Ouçam música em espanhol e francês. E entrem em alguma aula de natação, que faz bem pra saúde.
Pra encerrar queria saber quando o disco sai? Quem vai lançar é o selo Mondo 77 né? Fale um pouco de como o Ludov chegou neles. E como está sendo sair de uma gravadora de maior porte para um selo mais novato.
Não sabemos ainda quando exatemente o disco sai. Vamos gravar em fevereiro/março, leva-se um tempo para mixar, masterizar, prensar. Então pode sair a qualquer momento a partir de maio. Bom, fechamos com a Mondo 77 por buscar termos mais razoáveis de negócios do que se encontra por aí, e por acreditar neles. Eles estavam abertos a começar um contrato do zero, nossa expectativas e as deles mais bem balanceadas possível. É uma relação bastante aberta, direta, fácil, amistosa, franca. Tem tudo pra ser ótima.
É isso aí. Valeu e queria que vocês deixassem uma mensagem para os fãs novos (e os antigos também é claro) que sempre buscam as suas letras aqui no Vaga-lume.
Obrigado pelo interesse. Sempre desconfio que escrevemos as letras para ninguém, que ninguém se interessa, ninguém lê. Então é bom saber que existe essa busca aí. Cuidem-se.







Pitty
Cine
Hevo84
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Maria Cecilia E Rodolfo
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Forfun
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