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Entrevista: Fernanda Abreu


"...viver no Rio não é mais nem menos violento que qualquer outro grande centro urbano brasileiro.", Fernanda Abreu

Vaga-lume - 22 de agosto de 2006

Já faz quase 25 anos que Fernanda Abreu surgiu para o grande público como uma das vocalistas da Blitz, a maior responsável pelo estouro do rock brasileiro nos anos 80.

Nino Andrés
Fernanda Abreu letras
Fernanda Abreu
Com o fim da banda, Fernanda se retraiu enquanto se preparava para o seu passo seguinte: uma carreira solo baseada na dance music (isso numa época em que as palavras sampler, tecno, rave e outras ainda eram estranhas ao vocabulário pop brasileiro).

Desde seu primeiro disco solo, "Sla Radical Disco Dance Club", Fernanda sempre soube unir experimentação e apelo popular, agradando o público e também uma parcela razoável da crítica. Fernanda Abreu também se mostrou pioneira já que foi uma das primeiras, senão a primeira, a sacar que o funk dos morros cariocas iria, para usar uma expressão tipicamente carioca, "ganhar o asfalto".

Eterna defensora do Rio e do povo fluminense (não a toa foi nomeada Embaixadora do Turismo do Rio de Janeiro), Fernanda Abreu está; fazendo um balanço desses 16 anos de carreira solo com um pacote CD/DVD lançados pela série Ao Vivo MTV. O Vaga-lume aproveitou a passagem do show por São Paulo para conversar um pouco com ela. O resultado você confere aí embaixo.

 Entrevista

Vamos começar pelo disco novo. Você está lançando um "MTV Ao Vivo". Quem teve a idéia desse projeto e como foi pensado o repertório? Você espera que esse CD/DVD seja ouvido por um público mais amplo do que aquele que sempre te acompanha?


Nino Andrés
Fernanda Abreu letras
Fernanda Abreu

Esse projeto começou a partir do convite da MTV. Achei ótimo pois em 16 anos de carreira solo não tinha nenhum registro ao vivo em CD nem em DVD. Começei a trabalhar na idéia do show, repertório, coreografia, montei a equipe (cenógrafo, iluminador, figurinista), a banda e iniciamos os ensaios. O show que foi gravado pela MTV tem a minha direção. A direção musical é de Rodrigo Campello e minha. O repertório privilegiou as levadas mais dançantes, os sucessos e algumas novidades como duas inéditas, uma regravação e dois medleys.



Você, irá ganhar oficialmente o título de "Embaixadora do Turismo no Rio de Janeiro" em agosto. Um título que o resto do Brasil já havia lhe entregue informalmente. Queria saber de você, que sempre levantou sua voz a favor da cidade mesmo nos momentos mais complicados. como é viver no Rio em 2006?


Eu ganhei esse título ano passado. Para mim é um orgulho! Em termos de violência, viver no Rio não é mais nem menos violento que qualquer outro grande centro urbano brasileiro. Todo o Brasil necessita urgentemente de um plano nacional de segurança pública e um plano sério para diminuir a cada ano a exclusão social. Em termos de beleza geográfica é uma benção. Em termos musicais é fantástico conviver com tanta diversidade e criatividade.



E essa chegada do crime organizado com força em outras partes do país, como você está vendo essa coisa de PCC e rebeliões carcerárias? Será que tem alguma solução para isso?


Lógico que tem. O problema é que a elite politica e econômica brasileiras não se reunem (com a participação da sociedade) para estabelecer as bases de um plano nacional de segurança e erradicação da miséria e exclusão social. Não existe um plano sério de educação nesse país e a corrupção e impunidade estão em toda a parte do poder. Onde existe um vazio deixado pelo estado o crime toma conta. E sabemos que o crime organizado não está apenas nos presídios e
periferias/favelas, mas nos altos escalões do poder tambem.



Outro fenômeno cultural tipicamente carioca que está tomando o país (e o mundo) de assalto é o funk. Como você, que há tempos já falava da potencialidade estética e comercial do gênero vê essa "descoberta" do som do morro pelo pessoal do asfalto?


Nino Andrés
Fernanda Abreu letras
Fernanda Abreu

Essa ja é a quarta “descoberta” do funk pela mídia e classe média num período de 15 anos. Eu pessoalmente já vi outros momentos de boom do funk que não se sustentaram. Um arrastão aqui, a morte do Tim Lopes ali, tiroteio em porta de baile acolá serviram de pretexto para fecharem os bailes, reprimirem e jogarem o funk no gueto novamente. Na verdade, o que vemos em relação ao funk é um grande preconceito ainda. Não é facil para a sociedade brasileira aceitar e incluir essa música feita por pretos, pobres e favelados como um dos espelhos da nossa cultura.



Você está acompanhando o trabalho de gente como Bonde do Rolê e de gente de fora como MIA ou Diplo, que também partem do funk carioca em busca de uma sonoridade particular? Se sim, curte o som deles?


Acho ótima essa “apropriação” do funk feito por esses nomes que vc comentou acima. É importante para evolução de qualquer gênero musical esse movimento, essa mistura.



Voltando um pouco no tempo eu queria que você falasse um pouco da época da Blitz. Vocês imaginaram que dariam um dos primeiros pontapés em uma revolução cultural e comportamental no país?


Não. Acredito que Evandro, que era o líder da Blitz e principal criador, talvez soubesse o que queria, mas tenho certeza que o tamanho da repercussão foi uma surpresa. Mas todo o movimento jovem dos anos 80 foi muito providencial num país que acabara de sair de um período negro de ditadura militar.



Quando vocês se deram conta de que algo realmente importante estava acontecendo e que a Blitz era uma das maiores protagonistas de tudo aquilo? Aliás você nunca sentiu vontade de fazer alguns shows no estilo "Ccomeback" com eles? Me lembro que o público curtiu bastante ver você e o Evandro juntos no último Rock in Rio.


Nino Andrés
Fernanda Abreu letras
Fernanda Abreu

Não sei bem quando nos demos conta. Acho que foi como uma tsunami do bem. Adoro Evandro,
respeito o desejo dele de voltar a Blitz, fiz um show comemorativo com a Blitz original no Arpoador há alguns anos, mas tenho minha própria carreira.



E essa nostalgia em cima dos anos 80? Como você que viveu e curtiu aquele período encara isso? Você costuma ter acessos de nostalgia também?


Não sou nada nostálgica ou saudosista e esse revival não me disse nada.



Entre o fim da Blitz e seu primeiro disco solo passaram-se alguns anos. Conta pra gente sobre esse período de preparação para a carreira solo (os primeiros encontros com o Fausto Fawcett, as aulas de violão...) . Em que momento você se sentiu pronta para voltar?


Essas coisas voce não calcula. Elas simplesmente acontecem depois de um tempo orgânico de amadurecimento do que está por vir. Tudo foi muito natural. O trabalho com Fausto, aulas de canto e violão, samples, baterias eletrônicas, música dançante... até o lancamento do primeiro disco em 1990.



Um cara que sempre esteve ao seu lado foi o Herbert Vianna. Fale pra gente como essa parceria começou e de sua amizade com ele.


Nino Andrés
Fernanda Abreu letras
Fernanda Abreu

Sou amiga do Herbert, Paralamas do Sucesso, desde dos anos 80. Quando a Blitz terminou, nos encontramos no estúdio (ele estava produzindo um disco de Fausto Fawcett) e ele se dispôs a produzir minha primeira fita demo. A partir daí somos muito amigos e ele está sempre presente nos meus trabalhos.



Como foi que você se decidiu pela dance music com sotaque brasileiro, um gênero que ainda engatinhava por aqui em 89/90?


Porque essa era a minha linguagem. Sou bailarina, adoro dançar, adoro música black, samba etc... A música sempre entrou nas minhas veias através da dança. Era natural que eu seguisse esse caminho na música.



Para encerrar queria saber o que você anda ouvindo, assistindo e lendo nesse momento?


Tenho ouvido funk carioca, assistindo filmes em DVD, o último que vi e gostei foi “Cidade Baixa” e lendo “Moko no Brasil” de Alberto Renault e “Elite da Tropa” escrito por Luis Eduardo Soares junto com os caras do Bope.



Tem algum novo nome que pode vir a ser influência em seus próximos trabalhos?


Por enquanto, não.



Veja o site oficial da Fernanda Abreu!

Acesse www.fernandaabreu.com.br