Entrevista: Cachorro Grande
"O Lobão foi o único cara que quis lançar o cd do jeito que queríamos...", Beto Bruno
Vaga-lume - 29 de junho de 2006
Demorou um pouco mas finalmente o Cachorro Grande está começando a atingir um público maior e heterogêneo com seu rock clássico descendente direto das melhores bandas dos anos 60 e 70.
Muita gente deve pensar que vocês começaram ontem e que estão ainda no primeiro ou segundo disco. Acho que seria legal então que você contasse um pouco da trajetória da banda até aqui.
A gente lançou o nosso primeiro disco (Cachorro Grande de 2001) de forma independente por uma gravadora pequena mesmo para os padrões do Rio Grande do Sul. Ou seja, não tínhamos distribuição nacional. Então o que a gente podia fazer para espalhar a nossa música era sair tocando nos festivais de bandas independentes. E foi o que a gente fez. Isso ajudou a gente a conseguir um certo reconhecimento dentro desse cenário underground. O nosso segundo disco saiu encartado na “Outra Coisa” (a revista editada pelo Lobão que mensalmente traz um CD encartado).
Esse disco já chegou em todo o país e abriu as portas para que a gente conseguisse uma gravadora de médio porte, que é a Deck Disc, a nossa atual gravadora. Ao mesmo tempo acho legal que as coisas estejam acontecendo só agora, já que a gente conhece essas histórias de bandas que estouram logo no primeiro disco e depois não conseguem manter o pique. A gente está com o pé no chão e não estamos deslumbrados com nada.
O Cachorro surgiu numa leva de bandas gaúchas (Bidê ou Balde, Video Hits, Wonkavision...).Acho que agora dá pra falar com certa segurança que de todos aqueles grupos vocês foram os que se deram melhor no resto do país. A que você atribui isso?
Eu acho que foi porque a gente insistiu muito mesmo na época do primeiro disco. A gente vinha para São Paulo tentar tocar nos bares da cidade. Tocávamos as vezes para 20 pessoas, mas quando voltávamos (tempos depois) já eram 30 na platéia. Vai ver que a galera (do Sul) não tenha forçado tanto quando deveria, talvez por terem achado cômodo ficar restrito ao cenário gaúcho. E para nós isso nunca nos pareceu legal, já que o rock'n'roll é a música mais universal que existe né?
Por falar em Rio Grande do Sul, queria saber se a cidade chega a ser uma influência no jeito de ser da banda. Também seria legal falar sobre a cena de rock do estado que é forte e permite que muitos grupos sobrevivam tocando apenas localmente.
Isso é bem legal mesmo, rola muito das bandas de Porto Alegre tocarem por todo o interior do Estado. Mas isso acaba levando àquela comodidade de que já falamos há pouco. Por isso a gente prefere ficar se dividindo entre Rio, São Paulo e Porto Alegre.
Ou seja, vocês são os menos bairristas dentre as bandas do Rio Grande...
Totalmente. A gente detesta quando são bairristas com a gente então nem podemos fazer o mesmo com ninguém. E sendo sincero e sem hipocrisia, a gente quer trabalhar, ser bem sucedido como qualquer pessoa quer em qualquer emprego. Então é necessário que a gente venha pra cá. (Nota do editor: a entrevista aconteceu em São Paulo).
Ao preparar essa entrevista percebi que assisti alguns shows que devem ter sido muito marcantes para a banda. Daria para você falar sobre o que se lembra do primeiro show do grupo em São Paulo (ao lado do Bidê ou Balde no lançamento do livro "Gauleses Irredutíveis" em 2002)?
Foi lá na Uranus né? Aquilo era ou tinha jeito de bar gay, a gente achou a maior furada, mas foi a primeira vez que viemos para São Paulo. Nessa época a gente estava sempre junto do pessoal do Bidê ou Balde, já que tínhamos o mesmo empresário, então demos uma corridinha ao lado deles por vários lugares.
E o Upload Festival, que chegou a ser eleito como um dos 100 melhores já feitos no Brasil recentemente (pela Revista Bizz)?
Esse teve cenas desastrosas (foi nesse show que o guitarrista Marcelo Gross atirou a guitarra para o alto acertando em cheio a cabeça do vocalista que terminou o show ensangüentado e precisando levar vários pontos).Eu fiquei espantado e orgulhoso até de ver o show naquela lista.
Por que? Na hora você não sentiu nada? (risos)
Só senti aquela paulada. Quer dizer, aquele era um show que a gente estava curtindo fazer. Já tinham músicas que estariam no segundo disco, um burburinho em torno da gente já rolava e tava tudo do c* até rolar aquela guitarrada. Aliás aquela guitarra está aqui na minha frente, estou olhando para ela agora (risos).
Ela quebrou?
Quebrou nada (risos). Ela é uma Fender e não quebra nem a pau.
E o Campari Rock com o pessoal do Supergrass (uma das maiores influências do Cachorro Grande) vendo o show de vocês do palco?
Pô aquilo foi do cacete, porque para nós o Supergrass é banda dessas mais recentes que mais admiramos, e de repente a gente está lá tocando juntos no mesmo festival e quando olha para o lado eles estavam lá. Rolou um certo cagaço, porque antes de sermos músicos nós somos fãs né?
"O Acústico MTV" (gravado ao lado de outros artistas gaúchos) também deu uma força na popularização da banda. Vamos falar sobre esse projeto. Não rolou um medo de confundir o público que de repente via dois "novos" discos do Cachorro ao mesmo tempo nas lojas? Já que ele saiu junto com o "Pista Livre" (o terceiro disco)?
Não rolou problema mesmo porque não rolou turnê do Acústico. E a gente tinha dois materiais para divulgar. E ainda continua divulgando, já que continuamos em turnê. Foi legal porque de repente a gente não estava tocando só para aquele público de membros de bandas, interessados em rock e críticos de música, enfim, quem já tinha o nosso disco. A gente começou a tocar para várias outras pessoas, aquele pessoal que chega e diz que conheceu a passou a acompanhar a gente por causa do Acústico. E isso apesar do disco ter mostrado a gente em um formato com o qual não nos adaptamos muito bem.
No palco vocês costumavam ter uma postura bem radical, com aquela coisa de quebrar equipamento e por aí afora. A banda está mais domada hoje em dia?
Sim, mas isso tem a ver muito com o som que fazemos agora. Eu detesto esse termo "amadurecimento" mas é isso mesmo. A gente está mais ligado no lado musical da coisa. Apesar de tudo aquilo que a gente fazia era feito espontaneamente. Mas hoje em dia nossas músicas estão mais complicadas de se tocar e é melhor que a gente fique mais ligado nisso. Quer dizer, aprender a tocar saca? Já que estamos na estrada o mínimo que a gente precisa aprender é a tocar bem.
E como é estar fazendo sucesso com uma balada? Chegou a surpreender vocês? "Sinceramente" é a música de vocês com mais acesssos aqui no Vaga-lume e as visitas a essa letra triplicaram nos últimos três meses
Não tem jeito. O clipe é uma coisa muito forte hoje em dia. Quanto ao fato dela ser uma balada, isso não tem nada a ver. A gente sempre gostou daquela coisa meio "Let it Be" e das músicas do Paul McCartney, assim como daquelas baladas dos anos 70 dos Rolling Stones. Mas eu achava que não conseguia cantar esse tipo de coisa. E a gente não se achava muito delicado para tocar esse tipo de som. Mas é algo que a gente espera conseguir fazer mais vezes.
A entrada do (pianista) Pedro Pelotas deve ter estimulado esse lado também, não?
Claro, com a entrada dele a gente viu que podia realizar outro velho sonho nosso, que era o de fazer um baladão tipo "The Long and Winding Road" dos Beatles.
O visual do Cachorro Grande também chama a atenção. Alguém veio com a idéia dos ternos e chapéus ou vocês sempre andaram assim?
No começo a gente era mais mod (uma das tribos inglesas dos anos 60. Os mods se vestiam com as melhores roupas, andavam de lambreta e gostavam de soul music). Entre as bandas mais representativas do estilo estavam o Who e os Small Faces nos anos 60, o Jam nos 70 e o Ira! Que trouxe a estética para o Brasil já na década de 80). Então nós resolvemos manter esse estilo até por identidade. Sabe aquela coisa dos primeiros discos dos Beatles e dos Rolling Stones onde todos eles estão vestidos do mesmo jeito e você sente que eles são uma BANDA?
Vocês se conhecem há bastante tempo?
A gente se conheceu nos bares de Porto Alegre uns cinco anos antes da banda surgir mais ou menos. Tinha uma cena vamos dizer assim cool (risos), lá na cidade que estava se procriando há uns dez anos, aquela galera do cabelinho na testa, terninho... E a gente freqüentava aqueles
guetos, vendo as bandas, curtindo o som...
E o Lobão? Ele foi muito importante para vocês né?
Cara, não dá nem pra explicar como ele foi bom para nós. A gente estava no fim da turnê do primeiro disco e não estava legal. Esse disco que ele lançou tinha sido rejeitado não só pela nossa gravadora que achou que o material não era comercial, como por outro selo do Sul. E o Lobão foi o único cara que quis lançar o cd do jeito que queríamos, já que disso a gente não ia abrir mão. Então isso foi super importante porque nós apostamos no nosso som, mesmo com a gravadora falando que não ia rolar e ele chegou e decidiu lançar o disco daquela maneira nos dando total liberdade artística. Já que isso é o que a gente mais preza. Logo depois nós assinamos com a Deck com liberdade total também. Da capa e clipe até os arranjos e a produção. A música é a coisa mais importante e se a gente está aí tem que fazer bem feito. Ou da maneira que a gente acha melhor.
Para o público médio de pop nacional, talvez boa parte das referências sonoras da banda passam despercebidas. Dá pra você falar quem fez e faz a cabeça de vocês na hora de compor e tocar? Alguma banda nova chamou a atenção de vocês no últimos tempos?
No palco a influência maior é de The Who e Small Faces, coisas mais porrada. Mas na nossa vida e na maneira de compor entram Beatles, Rolling Stones, todas aquelas bandas dos anos 60. Daqui do Brasil a gente gosta muito dos primeiros discos dos Mutantes. E tem o Bob Dylan também.
Alguma banda nova além do Supergrass?
Eu gosto da atitude rocker do Oasis e o Liam canta pra cacete, eu tenho de admitir. Eu gosto do Jet, dá pra ver que eles tem as mesmas referências nossas, então não tem como não curtir.
Você baixa música da internet?
Não cara, eu sou fissurado em vinil. Eu nem sei ligar o computador. Eu estou indo atrás dos discos do Neil Young agora, estou trocando os meus vinis nacionais pelos importados.
Já existem planos para um próximo cd?
Algumas músicas estão aparecendo já, vez ou outra a gente toca alguma coisa nas passagens de som, mas tudo ainda sem muito compromisso. A gente não tem prazo com gravadora, mas também não gostamos de enrolar muito e acabar prendendo música. Aí você acaba que nem os Red Hot Chilli Peppers que gravaram sei lá, 70 músicas para esse último disco deles.






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