"A gente sempre vai abraçar qualquer oportunidade que aparecer mesmo que seja pra dar de cara contra o muro", Carlinhos Carneiro.
Vaga-lume - 25 de julho de 2006
Quando a Bidê ou Balde começou a fazer seu nome fora de sua Porto Alegre em 2000, muita gente apostou que ali estava surgindo o mais novo estouro do rock nacional.
Vamos falar dessa turnê por cidades novas para o grupo:
Nós tiramos umas férias durante o verão e quando voltamos, lá pra abril, maio, a gente se reuniu e começou a pensar no que ia fazer para esse ano de 2006. Pensamos em um novo disco, um DVD ao vivo, mas optamos por dar seguimento à turnê do "É preciso dar vazão ao sentimento!", mas passando por lugares onde jamais tocamos. Então estamos fazendo nossos primeiros shows em Santos, Sorocaba, interior do Paraná... e ainda vamos para o Pará e ao Nordeste.
Esse acaba sendo um bom caminho a ser trilhado por uma banda de caráter mais independente, certo?
Claro e para o lado criativo também é ótimo porque você chega com outro pique para tocar, por aquela ser a primeira vez na cidade. Você encontra aquele pessoal que estava louco para ver um show nosso e isso nos estimula a tocar com mais vontade.
Um pouco como banda gringa quando toca aqui pela primeira vez...
Com certeza e aí eles voltam pra lá e gravam uns discos bem legais. E é legal também a gente não gravar já um outro disco como seria de se esperar. Eu pelo menos gosto quando os meus ídolos dão essa demoradinha pra lançar o cd. A gente diz que agora lança os discos de forma tântrica (risos)
Vamos falar do Acústico MTV: Como foi pra vocês participar do projeto? Deu pra sentir um aumento no público de pessoas que não os conheciam?
O legal do projeto foi o caráter experimental dele, já que apesar do formato ser bastante consagrado, essa foi a primeira vez que eles colocaram quatro bandas num mesmo programa. E para as bandas também foi algo bastante experimental, aquela coisa de passar todos os arranjos para o violão. Com exceção do Wander que já tinha mais experiência com esse tipo de formatação. Para nós depois da gravação só rolaram coisas boas, tanto que o nosso terceiro disco quando foi relançado pela revista "Outra-coisa"(revista editada pelo Lobão que mensalmente traz um CD encartado) teve uma resposta do público dentro do nosso site muito maior que o próprio Acústico, mostrando que o programa da MTV levou o nosso nome para outros cantos.
Acho que seria legal então que vocês falassem um pouco sobre a trajetória da banda, já que muitos dos nossos leitores devem pensar que vocês acabaram de aparecer.
Nós estamos completando 8 anos de carreira já. A gente se conheceu na noite de Porto Alegre e na faculdade. Eu queria fazer uma trilha para um filme e chamei os caras. Mas logo no primeiro ensaio a gente desistiu da trilha e começamos a fazer canções. Desde então a gente trabalhou duro. A gente brinca com essa coisa de ser uma banda, com a mitologia do rock. Ao mesmo tempo a gente teve a sorte de começar bem quando estava rolando aquele "boom" da internet.
Como estava a cena rock de Porto Alegre quando vocês se juntaram?
Ela estava numa entressafra. Você tinha as bandas que estavam consagradas dentro do Sul como o Tequila Baby, Comunidade Nin-Jitsu e Acústicos e Valvulados. A gente surgiu com uma postura de ir além disso, e sempre mantivemos essa postura
Parte da crítica especializada os colocou como a "grande salvação do rock brasileiro". Se por um lado isso trouxe uma boa publicidade para a banda, por outro gerou uma certa desconfiança entre jornalistas e aquele público mais crítico. Como foi estar no meio daquele fogo cruzado?
Isso é natural e algo que sempre aconteceu. Acho que até quando os Beatles surgiram deve ter tido um pessoal que ficou cabreiro (risos).
E vocês? Chegaram a pensar que iriam virar um mega-sucesso de vendas?
A gente sempre esteve preparado para o que quer que acontecesse e disposto a abraçar todas as oportunidades. Tanto que quando a gente resolveu deixar São Paulo e voltar para Porto Alegre, foi porque queríamos gravar o nosso segundo disco. Ou seja, a gente sempre vai abraçar qualquer oportunidade que aparecer mesmo que seja pra dar de cara contra o muro. A gente adora essa coisa do cinto de segurança não segurando.
Vocês perderam um membro fundamental na banda, o guitarrista Rossato, no caso um dos principais compositores. Como foi passar por isso. Vocês já compunham antes ou tiveram de aprender na marra?
Com ele na banda as composições rolavam de uma forma diferente. Ele puxava uma base na guitarra e eu saía cantando em cima. Mas quando ele saiu fui na época em que todos nós estávamos morando juntos numa casa em São Paulo e isso para o lado criativo foi ótimo. Tanto que do ponto de vista criativo, o "Outubro ou Nada", nosso segundo disco, é muito mais rico que o anterior.
Recentemente a Kátia (que tocava teclados) também preferiu largar a banda. A saída dela foi amigável?
Ela saiu antes das gravações do terceiro disco. Ela foi pra Campinas, ficar com a família dela que é de lá. Assim como a nossa família nos chamou de volta pra Porto Alegre, a dela a chamou pra Campinas. Ela está casada com filho. E também está com uma banda nova, Os Impostores. Ela é nossa irmã.
E o prêmio de revelação de 2002 da MTV? Quando vocês ganharam do KLB, para surpresa de muitos. Vocês também se surpreenderam?
Pô a gente ganhou não só do KLB, como do Falamansa e do Surto! Foi completamente inesperado. Tanto que eu nem tinha discurso preparado e pedi para o KLB (risos). Mesmo porque eu achava que eles tinham um e eu aceitava agradecer as pessoas que eles iriam cumprimentar (risos).
Como está a cena no sul agora? As novas bandas continuam surgindo e tendo espaço ao menos por lá?
Lá sempre tem coisa rolando. Mas agora as novas bandas estão menos pop. A gente gosta bastante do Superguidis e de uma banda chamada Pública formada por uns amigos nossos.
E lá de fora? Quem vocês andam ouvindo?
A gente gosta de ouvir os discos novos de quem a gente já curte faz tempo. Como os mais recentes do Primal Scream e do Sonic Youth. Eu adoro Beck e Flaming Lips e das novas curto o Kasabian e esse lance hippie com violão de gente como o Devendra Banhart e Elliott Smith. O André (baixista) gostou do segundo do Kings of Leon e do Black Rebel Motorcycle Club. Mas a nossa pilha mesmo é com o Supergrass.
Falando em ídolos como foi dividir o palco e o estúdio com o Marcelo Nova?
Foi do c* e bizarro porque ele se tornou nosso amigo. Ele era um ídolo, daqueles que você só via na tv e hoja já dá quase pra gente encher o saco dele (risos). Já fizemos mais de dez shows com ele e tocamos no show comemorativo pelos seus cinqüenta anos com um monte de gente. Teve Ira!, Capital Inicial, Os Panteras (a primeira banda de Raul Seixas), Walter Franco, Macalé.. Era até pra ter saído em DVD, a gente espera que isso saia.
E a história do processo a respeito da música "E Por que não?"?
Ele está na justiça e a gente está lutando para preservar a nossa liberdade de expressão (nota – A música presente no primeiro disco do grupo e também no Acústico MTV foi acusada de fazer apologia à pedofilia e por isso teve a sua execução proibida). Eu só acho que a interpretação de uma obra de arte não é do autor e sim de quem está recebendo a obra, algo totalmente subjetivo e para mim o legal é a liberdade das pessoas terem diversas interpretações da mesma música. E as nossas letras são bem diferentes. Não dá pra dizer que nossas letras são iguais às do Los Hermanos ou as do Charlie Brown Jr. Agora a gente não está tocando a música, porque foi estipulado que deveremos pagar uma multa caso a apresentemos ao vivo. A gente vai acatar qualquer decisão que a justiça tome, mas temos certeza de que ela vai ter uma decisão coerente com os dias de hoje.
E o novo disco? Já que vocês optaram por não lançar agora, vai sair quando?
Nós já temos muito material. Só de sobras do disco anterior são vinte músicas, fora as coisas que novas que todos nós sempre fazemos. Ao mesmo tempo a gente sente a falta de não ter um DVD só nosso. De repente a gente pode lançar um com clipes, ou um com um show ao vivo, ou até um de inéditas ao vivo. Mas isso a gente só vai decidir depois que a turnê acabar em novembro. E vamos ver se dessa vez a gente consegue gravar no verão, algo que a gente sonha em fazer desde o nosso primeiro disco...