As 100 Músicas do Século
Ike and Tina
O último grande momento de Phil Spector e o fim de uma era. Dessa vez ele contratou Tina Turner a peso de ouro (Ike Turner o marido, parceiro musical e espancador de esposa ficou só olhando) e por meses trabalhou no que seria a sua maior criação. Em partes ele conseguiu seu feito, pois poucas músicas na história do pop são capazes de transmitir tamanha emoção, tanto que até hoje ela entra bem colocada em eleições de melhores canções. O problema é que, apesar de ter atingido a terceira posição na parada britânica, o disco foi um gigantesco fracasso na América. Terminava ali a era dos produtores e Phil nunca mais se recuperaria (apesar de ter gravado vários discos com John Lennon e George Harrison). Já Paul McCartney nunca o perdoou pelo trabalho feito no disco Let it be dos Beatles e não sossegou até conseguir lançar uma versão crua do disco Let it Be, ou seja, sem a pós-produção feita por Spector.
The Byrds
Por anos pensou-se que essa música tratava de drogas, especialmente pela letra (que falava sobre estar se sentindo a “8 milhas do chão”) e pelos climas sugeridos pelo instrumental. Não adiantou a banda negar e falar que na verdade a canção só descrevia a primeira turnê do grupo pela Inglaterra, que o estrago já estava feito e a música banida em boa parte das rádios. Se a letra não fazia nenhuma alusão, a música realmente levava os ouvintes a um estado alterado, especialmente por conta dos solos de guitarra de Roger McGuinn, inspirados diretamente na música do saxofonista John Coltrane. Eight Miles High é considerado o primeiro single psicodélico e influenciaria boa parte da música que foi ouvida no mundo nos anos seguintes (os Beatles declararam que And your Bird Can Sing, presente no disco Revolver, era uma homenagem deles para a banda americana).
The Beatles
Cansados das fãs barulhentas e de todo o caos que os circundava, os Beatles decidiram parar de tocar ao vivo e se concentrar apenas nas sessões de gravação. A partir dali a banda iria se dedicar a compor e a experimentar drogas e novas técnicas de estúdio. Strawberry Fields mostra esse novo lado deles, numa composição onde John Lennon relembra sua infância – Strawberry Fields era um orfanato onde ele brincava - em cima de uma melodia que soa ao mesmo tempo familiar e estranha. O mais engraçado é saber que o compacto (que também tinha Penny lane) hoje clássico incontestável, foi o primeiro do grupo em muito tempo a não atingir o primeiro lugar da parada inglesa (já na americana eles chegaram lá).
The Kinks
Mais característica do som dos Kinks essa é uma das músicas mais queridas pelos ingleses que costumam colocá-la nas primeiras posições quando fazem suas listas de “melhores compactos da história”. Esse hino ao jeito inglês de se viver foi recentemente regravada pelo Def Leppard e mostra porque os Kinks fazem parte do “quadrado mágico” inglês com os Beatles, Rolling Stones e The Who.
Velvet Underground
Em 1967 o mundo era só paz, amor e flores no cabelo, quer dizer, menos para esses Nova Iorquinos que preferiam cantar sobre traficantes, heroína, paranóia ou, como nessa canção, sado-masoquismo. Tudo regado a muita dissonância, barulhos diversos e, sim, até boas melodias pop. O primeiro disco do Velvet não vendeu nada em sua época, mas, como costuma ser dito, quem o comprou montou uma banda. O grupo de Lou Reed (e John Cale que saiu depois do segundo LP para se tornar artista solo e produtor) pode realmente ser considerado visionário, já que o punk, o pós punk e os estilos dali derivados, jamais teriam existido sem os Velvets. Por causa disso, o “disco da banana” foi recentemente considerado a melhor estréia do rock – pela Uncut. Até agora ninguém chiou. O Velvet iria lançar outros três discos de estúdio igualmente importantes e todos também com péssimas vendas e acabaria em 1970. Lou Reed se lançaria em carreira solo e, ainda que não tenha se tornado mega-estrela, conseguiu se impor não só artística, mas também comercialmente, dentro do mercado (graças a ajuda de David Bowie que produziu sua música e disco mais conhecidos: Walk on the Wild Side presente em Transformer de 1973).
Jimi Hendrix
Existem guitarristas e existe Jimi Hendrix. Até hoje ninguém conseguiu fazer tanto pelo instrumento em tão pouco tempo (Hendrix morreu no auge com 27 anos). Jimi experimentou timbres, efeitos e tocava muito, quer dizer MUITO. Ele na verdade achava mais legal gravar longas faixas experimentais, mas seu empresário Chas Chandler, dizia que seria mais jogo se ele, e sua banda: o Experience, lançassem músicas mais concisas que pudessem tocar na rádio. Purple Haze acaba servindo a todas as partes, já poucas músicas tão inventivas e ousadas como essa chegaram as paradas desde então. Hendrix também quebrou barreiras raciais, já que ele nunca se preocupou em separar negros e brancos fosse no palco, na platéia ou em sua música, que era livre para ir do funk, blues e soul até o folk e rock psicodélico.
Beach Boys
Depois de ouvir Rubber Soul, Brian Wilson decidiu que sua missão era a de superar os Beatles. Pet Sounds foi o resultado direto dessa competição e ele podia se gabar de ter conseguido seu intento. Não a toa, Pet Sounds acaba sempre considerado um dos dois ou três melhores discos de rock da história. Pet Sounds era para ter sido um começo. As ambições de Wilson atingiriam o ápice com Good Vibrations, o compacto que tomou as paradas de assalto em 1967. Gravado a um custo astronômico em diversos estúdios, Good Vibrations seria a peça central do disco Smile. Infelizmente tomado por uma paranóia gigantesca que debilitou de vez o já frágil Wilson, Smile acabou abortado antes de seu término e os Beach Boys nunca mais teriam o mesmo sucesso e influência. Wilson resolveu enfrentar seu maior fantasma anos mais tarde e em 2003 ele finalmente resolveu gravar e lançar Smile tal como ele imaginou nos anos 60. Público e críticos concordaram que a espera valeu a pena.
Jefferson Airplane
São Francisco foi o berço da psicodelia. De lá saíram inúmeras bandas afeitas a longas viagens instrumentais (geralmente servindo de trilha sonora para as viagens de ácido da galera). Em meio a nomes como Grateful Dead, Moby Grape, Big Brother and the Holding Co. (que revelaria Janis Joplin) e Quicksilver Messenger Service, brilhava o Jefferson Airplane responsáveis por bons discos além dessa música com seu ritmo oriental e a letra fazendo alusões á Alice no país das Maravilhas e tão direta quanto se podia ser em 1967 (“uma pílula te deixa grande e outra pequeno, mas as que a suas mãe te dá não fazem nada). A revista Mojo a elegeu a melhor canção sobre drogas já escrita.
The Doors
Assim como o Velvet Underground, os Doors tinham um fascínio pelo lado oculto da vida. Mas se a banda de Lou Reed passou anos no ostracismo, os Doors de Jim Morrison se tornariam ultra-populares, tocando para garotinhas histéricas e se apresentando no Ed Sullivan Show. Jim tinha um comportamento errático por conta do abuso de substâncias lícitas e ilícitas. Sendo assim a banda era capaz de gravar grandes músicas e discos de material bastante inferior. Break on Through obviamente entra na primeira lista, com a batidinha bossa-nova preparando a chegada do órgão de Ray Manzareck e a clássica entrada de Morrison: “You know the day destroys the night.. Jim morreu em 1971, os sobreviventes tentaram continuar mas desistiram após gravarem dois discos que, até hoje, quase ninguém ouviu.
Procol Harum
Mais um caso de “se essa banda só tivesse feito essa música já teria valido”. A whiter shade of pale tomou conta do planeta em 1967. A letra enigmática, a interpretação de Gary Broker e, especialmente, o solo de órgão descendente direto de Bach tornaram a música uma das mais tocadas no ano de seu lançamento (e nos anos seguintes, já que a canção está sempre presente em trilhas de filmes e rádios de flash-back) . Depois desse grande sucesso, a banda tentou, sem conseguir, emplacar outro single (Homburg) e lançou discos que passaram despercebidos pelo grande público, mas são bastante estimados pelos fãs de rock progressivo.
Aretha Franklin
Otis redding compôs e gravou essa música primeiro e disse após ouvir a versão de Aretha que ela tinha roubado-lhe a música. Aretha pode ser considerada a maior cantora da história da música pop. Até hoje milhares de aspirantes tentam chegar no seu nível de interpretação e alcance vocal em vão. Um verdadeiro hino feminista, Respect demonstra bem os poderes dela e de todos que a circundavam (o time de ouro da gravadora Atlantic, gente como os produtores Jerry Wexler Tom Dowd e Arif Mardin, a Muscle Shoes band...). Aretha demorou para emplacar. Por anos ela gravou pop e gospel para a CBS. A verdadeira Aretha só surgiu mesmo em 1967 e gravaria vários clássicos do soul como You make me feel like a Natural woman, I say a Little Prayer, Think...
Otis Redding
Representante maior do soul da Stax, bem mais cru e pesado que o da Motown, Otis Redding estava pronto para se tornar não só um cantor de sucesso, como uma mega-estrela. Sua participação no Festival de Monterey tinha deixado todos de boca aberta e o sonhado crossover (quando um artista consegue transpor o seu nicho de mercado) acenava. Tudo isso acabou no dia 9 de dezembro de 1967 quando Otis morreu em um acidente aéreo logo após o término da gravação dessa música. Dock of the Bay saiu poucos dias depois e atingiu o primeiro posto da parada americana e o que era pra ser o início de uma nova fase tornou-se o epitáfio de uma das maiores vozes da música norte-americana.
The Beatles
Passada a onda psicodélica os Beatles voltaram a um som mais básico (mas nem por isso menos rico). Hey Jude escrita por Paul McCartney para o filho de John, Julian Lennon, foi o primeiro lançamento da Apple, o selo da banda, e foi o compacto mais vendido da carreira deles mesmo tendo mais de 7 minutos. O compacto hey Jude/Revolution marcou o início da fase final da banda, onde as músicas eram escritas em separado e os estilos dos compositores ficava mais proeminente: Lennon cada vez mais raivoso e politizado e McCartney mais introspectivo, esperançoso e baladeiro (George Harrison correria por fora e também iria contribuir com grandes canções para o repertório do grupo, notadamente Something, que hoje só perde para Yesterday em número de regravações).
The Zombies
Os Zombies começaram ainda na primeira metade dos anos 60 fazendo um som que mesclava Beatles com as viagens do órgão de Rod Argent. Em 1967 eles gravaram Odessey and Oracle, hoje eterna presença nas listas de grandes discos já feitos, e duas semanas depois se separaram, cansados da falta de sucesso. O disco só acabou saindo porque o influente Al Kooper implorou á gravadora. O resultado? Time of the Season chegou ao número 1 da parada e se tornou a música tema de 1968 (sua levada inspiraria os Mutantes a criarem “Ando Meio Desligado”). Mesmo com todo esse sucesso os Zombies decidiram não retornar e até hoje fãs se perguntam o que mais eles poderiam ter criado com um pouco mais de tempo... e sorte.
Marvin Gaye
Marvin Gaye foi mais um nome que fez história dentro da Motown. No começo ele gravava o soul típico da gravadora, repleto de cordas e belas melodias. I Heard through the Grapevine contou com a produção moderna de Norman Whitfield e além de ter marcado um novo ponto de partida para Marvin Gaye se tornou o compacto mais vendido da história do selo. Interessante é saber que a canção a princípio tinha sido colocada dentro de um álbum de Marvin apenas para preencher espaço até ser descoberta por um radialista de Chicago. Outra curiosidade: antes de ganhar sua versão definitiva a música foi gravada por Gladys Knight que a levou para o segundo lugar da parada americana.
Creedence Clearwater Revival
O Creedence era o veículo de John Fogerty que resolveu levar o rock de volta ás suas origens no blues, rock-a-billy e r'n'b e no compacto como veículo de expressão fundamental. Assim ele tornou a sua banda uma das mais importantes e lucrativas de sua era. Fogerty lançava música atrás de música (só em 1969 foram 3 Lps) e elas sem erro iam parar nos postos mais altos da parada. Entre suas músicas mais antológicas estão Proud Mary, Have you ever seen the rain e muitas outras que até hojem fazem sucesso em rodas de violão, barzinhos e rádios de classic rock. Fortunate Son de qualquer forma foi a sua grande obra-prima, um raivoso manifesto anti Vietnã que lembrava que muitos iam para a guerra por não terem as costas quentes.
Elvis Presley
Nos anos 60 Elvis perdeu terreno para os artistas da Invasão britânica (liderados pelos Beatles e Stones) e para outros gêneros que tomaram forma na década (como o soul dos selos Motown e Stax e o folk de protesto). Elvis seguia o conselho do Coronel Parker, seu empresário, que dizia que rock era coisa passageira e sugeriu que ele se concentrasse no cinema. Por isso, ele nunca mais havia pisado em um palco desde o fim da década de 50. Em 1968 Presley resolveu voltar a ser o Rei. Gravou o especial para TV que não a toa ficou conhecido como “O show da volta” e retornou à sua cidade natal Memphis para gravar nos estúdios Muscle Shoals. Lá ele gravou um punhado de canções repletas de soul, country e blues que viraram o disco “From Elvis in Memphis”. Dentre essas uma se destacou logo de cara, era Suspicious Minds que o colocou novamente no primeiro lugar da parada.
The Band
Diz-se que The Band foi a melhor banda ... do século XIX. Esse grupo canadense realmente parecia viver em outra era e, por mais estranho que pareça, é isso que ainda hoje os torna tão atemporais e frescos. Antes de virarem uma “banda” os membros do grupo haviam, entre outras coisas, acompanhado Dylan em sua polêmica turnê de 66, quando ele abandonou a gaita e violão para partir para o rock'n'roll e ganhou em troca uma chuva de vaias por onde passou. Ao lado de Dylan eles gravaram, em 67, as célebres Basement Tapes (uma série de gravações caseiras repletas de folk, blues, humor e rusticidade, isso quando o resto da realeza do rock abraçava o psicodelismo, que era futurista e colorido por definição). Em 68 eles chegaram ao primeiro álbum e criaram todo um movimento de “volta às raízes” e vida bucólica. O segundo disco foi ainda melhor e é dele que vem The Night they Drove Old Dixie Down, canção de forte carga emocional que conta um episódio da guerra da Sesseção do ponto de vista dos sulistas.
Led Zeppelin
Passada a onda psicodélica algumas bandas voltaram para o rock mais básico enquanto outras preferiram seguir viajando. Desse embate nasceriam dois dos estilos que definiram os anos 70: o rock progressivo e o hard rock/heavy metal. O Led deu seqüência às idéias do Cream de Eric Clapton e de Jimi Hendrix: um som pesado e com forte influência do blues americano. A essa receita o líder Jimmy Page acrescentou umas pitadas de música celta, um baterista mosntruoso (John Bohan falecido em 1980, selando o fim da banda) e um baixista quietinho mas muito talentoso chamado John Paul Jones. Ah tinha também o vocalista e sex symbol Robert Plant e seu jeitão de hippie e fã do “Senhor dos Anéis”. Some a isso um empresário brutamontes (que chegava a pegar 90% da bilheteria dos shows) e o resultado não poderia ser diferente: O Led se tornou a maior banda dos anos 70, mesmo com a crítica toda caindo de pau (coisa difícil de se acreditar hoje em dia). Selecionar uma ou duas músicas do grupo também é tarefa complicada. Stairway to heaven talvez até fosse a escolha mais óbvia, mas é em Whole Lotta love que se define o Led Zeppelin com o vocal gritado, o riff que todo guitarrista mais cedo ou mais tarde aprende a tocar e a parte final com o uso do Theremin selando a mistura de passado e futuro. Detalhe: o Zeppelin tinha o “hábito” de roubar antigos blues e renomeá-los (sem dar crédito nenhum para os autores). Para muitos Whole Lotta é somente uma versão turbinada de um antigo blues de howlin' Wolf chamado You Need Love.
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